segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Pessoas saudáveis que tomam antidepressivo ficam menos irritadas.

A pesquisa analisou 120 voluntários rigorosamente saudáveis – eles não poderiam ter pais, irmãos, avós, tios ou primos com nenhum sintoma de doença psiquiátrica. Por 12 semanas eles tomaram aleatoriamente duas pílulas. Uma continha 40 miligramas de antidepressivos – doentes usam doses a partir de 75 mg – e a outra não tinha nenhum princípio ativo. Depois, especialistas analisaram as mudanças em diversas áreas da saúde mental e física – agressividade, personalidade, sono, alimentação e o cérebro.
Nas semanas em que tomaram os medicamentos, cerca de 30% dos voluntários apresentaram sensíveis melhoras no humor. Eles passaram se irritar menos e tolerar mais as situações adversas. Além disso, passaram a prestar mais atenção em suas tarefas diárias. No trabalho, eles ficaram menos aflitos com as exigências simultâneas e erraram menos. Nas semanas em que não tomaram os remédios, não relataram mudanças.

Entre os efeitos colaterais da medicação estavam sono picado – os pacientes passaram mais momentos da noite com sono leve – e aumento ou diminuição do apetite. Esses efeitos aconteciam com todos os pacientes que passaram pelo tratamento.

Os pesquisadores não sabem explicar por que os remédios causaram essas mudanças, nem por que as alterações aconteceram somente com um terço dos voluntários. Essas pessoas eram menos medrosas, irritadas e impulsivas e mais resilientes – aceitavam com mais facilidade e resignação os problemas da vida.

Humor inesperado

A pesquisa foi feita para esclarecer porque alguns pacientes psiquiátricos que tomavam antidepressivos ganhavam um humor melhor enquanto recebiam o remédio do que antes de ter a doença. Os resultados mostram para os médicos que o bom humor, em muitos casos, é um efeito extra do remédio.

A utilização de voluntários normais é uma rotina no teste de efeitos de medicamentos. “Não estamos propondo que as pessoas saudáveis usem antidepressivos – não queremos mudar o seu temperamento”, esclarece o professor da FMUSP, Valentim Gentil Filho, responsável pelo projeto temático da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). “Não há nenhuma indicação médica para tratar pessoas normais - a medicina se preocupa com a prevenção ou o tratamento das doenças.”

Para explicar as descobertas e discutir com a sociedade as questões éticas, científicas, filosóficas e biológicas que a pesquisa levanta, o grupo vai realizar no dia 14 de novembro um simposio aberto a interessados no assunto.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Críticas a Lei da castração quimica

O projeto de lei que tramita no Congresso que visa “castrar quimicamente” os pedófilos levanta, como tudo em psiquiatria, muita complexidade. Em primeiro lugar, “pedofilia” não é uma “doença pura”, é uma “síndrome”, ou seja, é um conjunto de sintomas que podem surgir em várias doenças diferentes. Há, por exemplo, várias doenças psiquiátricas que podem cursar com comportamentos pedofílicos: bipolares, hiperativos, esquizofrênicos, dementes, lesionados frontais, autistas, epilépticos, etc. Para cada uma destas doenças, o tratamento é diferente e o tratamento de base não é a castração química, é o tratamento da doença geradora do comportamento. Essas doenças mentais acima têm um tratamento específico e que não envolve primariamente a “castração química” (esta última nada mais é do que o uso de medicamentos, de vários tipos, várias classes farmacológicas, que inibem o desejo sexual, inibindo a ação ou a produção de testosterona, o hormônio sexual  -   este efeito é revertido tão logo a medicação é suspensa).  Portanto, seria um erro absurdo, absoluto, submeter algum desses pacientes, por lei, a um tratamento de “castração química”. A lei, corretamente formulada, para estes casos, seria a de obrigatoriedade de um  diagnóstico e tratamento psiquiátrico corretos, e não de uma simplificação infantil como esta (“castração química”). Além destas complexidades acima, o problema médico da pedofilia não para por aí. O próprio comportamento pedofílico, em si, pode ser sub-classificado em diferentes entidades patológicas, conforme pode ser visto em um trabalho recente, setembro 09, feito no Núcleo de Psiquiatria Forense da USP e publicado na Revista de Psiquiatria Clínica (disponível na internet). Assim, o comportamento pedofílico pode ser classificado como “abusador” (que não chega a cometer  violência sexual, só carícias, pornografia, etc) ou “molestador” (que comete  violência). Os molestadores, por sua vez, podem ser classificados como “situacionais” e “preferenciais”.

Os situacionais podem ser subdivididos entre os regredidos imaturidade intelectual), inescrupuloso (amorais), inadequados (psicóticos, dementes, toxiômanos, alcoolistas, descontrolados). Os preferenciais, por sua vez, podem ser subclassificados em sedutores, sádicos e introvertidos.  Para cada grupo destes há um tratamento psiquiátrico diferente, tratamento não só medicamentoso, mas também psicoterápico e até religioso (a religião é um poderoso instrumento de modificação de condutas sexuais para determinados grupos de doentes). Por exemplo, eu tenho um paciente que é um engenheiro de telecomunicações que, quando bebe, assume comportamentos exibicionistas e pedofílicos. Para este paciente,  não foi usada a castração química, mas sim o tratamento da doença de base, o alcoolismo. Além do tratamento medicamentoso, da psicoterapia, individual e familiar, o paciente se engajou adequadamente em uma crença religiosa, abandonando assim seus hábitos viciosos. Se fosse “submetido à lei”, como está, teria de ser “castrado”, o que seria errado, do ponto de vista médico. Outro problema é o fato do criminoso poder trocar a pena por tratamento. É claro que não vai dar certo, por muitos motivos: todos vão querer trocar, vão sair da cadeia rapidinho, aí começam os problemas. Em primeiro lugar, não há psiquiatras disponíveis, especializados e no serviço público, para tanta gente. Em segundo lugar, o tratamento mais efetivo, aliás, o único efetivo, envolve comprimidos (que eles não tomam por conta própria) e injeções (na base de gosserrelina e similares), que são extremamente caras. Em terceiro lugar, quem é que vai fiscalizar este tratamento? Não há um funcionamento adequado do Judiciário para isto, eles nem conseguem julgar os processos que estão em cima da mesa, quanto mais entrar em um programa complexo como este. O programa é de extrema complexidade, como vimos, porque, além das várias doenças, há vários tratamentos, inclusive antiandrogênicos (que é o nome técnico para “castração química”). Quem vai supervisionar isto, dentro do Judiciário? Médicos psiquiatras super-especializados que recebem mil e oitocentos reais por mês? Se recebessem como um juiz, ainda vai, mas, com esta “miséria” de salário, não se acha ninguém. Em síntese, vai ser uma lei que irá servir, mais uma vez, apenas para tirar criminosos ricos, e cheios de casuísmos jurídicos, da cadeia.